segunda-feira, 21 de março de 2011

Paisagem




Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.



Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores, elástica e dura.

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.



Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento,

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.



Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.



Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.







Sophia de Mello Breyner Andresen

(Foto de Albino Madaíl)

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